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Entrevista de Rita Foelker ao Jornal ALAVANCA
(Órgão de divulgação da USE-Campinas, em Janeiro de 2003)
Entrevista e fotos: J. P. Andrade
Alavanca - A Pedagogia infantil tem sido apresentada à luz do Espiritismo ou não há necessidade de rotulá-la assim?
Rita - Desde que existe um pensamento espírita a respeito da Educação, o qual estabelece princípios para a prática pedagógica diferenciada, nós podemos dizer que existe, sim, uma Pedagogia Espírita. Eu não sou professora nem pedagoga, estudo a Educação como autodidata, para me aprimorar como escritora de livros infantis e para colaborar com o trabalho que casas espíritas desenvolvem, dirigido às crianças e aos jovens. Mas esta é minha opinião.
Alavanca - Mudaria o conceito pedagógico se falássemos de reencarnação e lei de causa e efeito para criança?
Rita - As idéias pedagógicas teriam muito a ganhar se incorporassem a idéia de evolução espiritual, reencarnação e "causa e efeito", não só para ensinar tais conceitos às crianças, mas para mudar a maneira de entender o educando. É diferente educar para uma vida e educar para a eternidade. É diferente estar diante de uma criança que não era ninguém, antes de nascer, e diante da que traz hábitos e traços de seu passado reencarnatório, idéias inatas, conhecimentos e vivências.
Você poderia ter citado, também, a mediunidade; a criança como espírito encarnado, é naturalmente médium, sujeita a influências sobre seu humor e seu comportamento. Se os educadores aprendessem a lidar com essa realidade, muita coisa seria diferente, não só na sala de aula , como nas reuniões de pais e no encaminhamento de situações que, atualmente, dão trabalho e deixam os professores sem saber o que fazer. Algum dia será assim, mas quem começa a levar a realidade espiritual em conta tem visão de futuro e esta alguns passos à frente.
Outra conseqüência de se pensar a tarefa educacional, junto com os princípios espíritas, seria o educador colocar-se mais aberto e receptivo às inspirações e intuições dos Educadores do mundo espiritual. Elas de fato existem e surgem sempre que necessário, se permitirmos que aconteça: de uma fala que vem no momento certo para dar um rumo produtivo ao estudo até uma idéia que vira ao ponto de partida para todo um trabalho.
Contudo, é mais fácil falar de Espiritismo que agir com o que nele aprendemos, então você tem educadores espíritas que agem como qualquer professor não-espírita. A Educação segundo o Espiritismo precisa colocar em ação todos os ensinamentos espíritas. Mas a verdade é que podemos ser espíritas por longos anos sem que o verdadeiro pensamento espírita se incorpore às nossas atitudes a ao nosso jeito de ver a vida.
Por que isto acontece? Posso falar sobre isto? Porque, em muitas casas espíritas, se faz um tipo de estudo que está a quilômetros de distancia da realidade. "Aqui se estuda Kardec," dizem. Porém, nós nos enriquecemos e entendemos melhor Kardec, quando estudamos suas obras de maneira interdisciplinar e contextualizada. Quando você estuda a doutrina, distante da vida real, é muito difícil fazer as conexões que permitem aplicar o conhecimento espírita na vida prática.
Alavanca - Se falasse para as crianças que seus pais poderiam ser seus filhos em outras encarnações mudaria a educação dentro do lar?
Rita - Não creio. O que os pais mais fazem é falar, buscar todo tipo de argumento para conseguir comportamentos apropriados por parte dos filhos. O que mudaria a Educação, dentro do lar, seria vivenciarmos tudo que aprendemos com o Cristo e a Doutrina Espírita. Ou seja, como pais, somos pessoas transformadas pelos princípios espíritas que abraçamos? Ou estudamos, sabemos tudo no nível do intelecto, mas continuamos basicamente os mesmos de antes? Nada transforma mais a realidade que a nossa transformação.
Alavanca - Dentro do projeto "Filosofia Espírita para Crianças" poderão ser introduzidas outras modalidades pedagógicas?
Rita - O projeto "Filosofia Espírita para Crianças" é um trabalho recente, não completou sequer seu primeiro ano de idade, portanto, ainda estamos descobrindo seus desdobramentos. Por que "filosofia para crianças"? Kardec nos diz que a força do espiritismo está em sua filosofia, "no apelo que faz à razão e ao bom senso".
O que observamos é que muitas das crianças que passaram a infância participando da "evangelização" (do modo como é praticada nos centros), freqüentemente, chegam à adolescência e à juventude bastante despreparadas para pensar o Espiritismo, para responder a argumentos contrários e para se posicionarem como espíritas. Não me refiro a qualquer tipo de fanatismo, que se opõe ao pensamento espírita. Mas quero dizer que, em geral, nossos adolescentes e jovens não percebem a força dos raciocínios espíritas, que também nos preparam para desafios da existência. E precisamos mudar isto.
No item 8 da introdução do estudo da Doutrina Espírita, que abre O Livro dos Espíritos, Kardec nos orienta, dizendo que não se forma o gosto pelo estudo sério da noite para o dia. Que uma Doutrina que nos lança, de repente em cheio, numa ordem de coisas tão novas só pode ser realizado com proveito por homens sérios, perseverantes, isentos de prevenções e que tenham o forte propósito de atingir um resultado.
Desenvolver os instrumentos do pensar, do analisar, do comparar, refletir e concluir é algo que pode ser feito desde muito cedo, se o educador estiver preparado. Os objetivos e propostas do Projeto estão disponíveis na Internet, em www.edicoesgil.com.br.
Alavanca - Seu trabalho de divulgação espírita através da Internet tem trazido resultados satisfatórios?
Rita - Tenho colaborado com alguns sites e sou pessoalmente responsável por dois: o do "Jornal do CEM", www.jornalcem.hpg.com.br e o das Edições Gil, www.edicoesgil.com.br, que dirijo e onde mantenho a Página da Criança e o Espaço do Educador, homônimo da coluna no querido "Alavanca" e com proposta muito semelhante. Hoje assumo que meu "ofício" principal é escrever, minha principal atividade espírita é divulgar o Espiritismo através da palavra. Como a maior parte da informação presente na Internet é escrita , é um ótimo lugar para um escritor estar.
Também colaboro com o site da FEAL - Fundação Espírita André Luiz, escrevendo textos que versam sobre o tema da Família e da Educação. Muitos dos textos lá publicados integram nosso livro "Pais e Filhos, Companheiros de Jornada", que foi lançado em Campinas, na Feira do Livro, em outubro de 2002. (Foto acima.)
Hoje em dia, há inúmeros grupos de estudo e discussões sobre temas espíritas na Internet com um conteúdo muito bom. Não tenho dúvida de que este é um excelente caminho, especialmente pelo fato de atingir lugares, e até outros países, onde o Espiritismo ainda é quase desconhecido.
Acredito que os educadores espíritas precisam se acostumar com isto, porque a geração que está vindo aí domina esta linguagem e, se nós soubermos usá-la, termos um grande auxiliar do nosso trabalho, tanto para troca de idéias e textos como para pesquisa.
Alavanca - Por que você fala em "educador espírita", em vez de "evangelizador"?
Rita - Porque o que nos propomos a fazer, de fato, é educar. Nós nos acostumamos a chamar de "evangelização", só isto. Evangelizar é ensinar o Evangelho. Educar é mais, é preparar para a vida imortal, desenvolver potenciais, olhando a criança como um ser integral: físico, mental, emocional, moral, espiritual, social. Há uma linha, dentro do Movimento Espírita, que defende a idéia da Evangelização. Mas nossos grandes exemplos, como Pestalozzi, Kardec, Euripedes, Anália Franco, e outros não eram "evangelizadores". Eram educadores e neles é que devemos nos espelhar. Vinícius que coordena a equipe espiritual do Formare (Programa de Formação e Reciclagem do Educador da Infância e da Juventude Espírita) e de nossas oficinas e seminários, era um educador, muito embora tantos trabalhos de evangelização tenham surgido sob sua inspiração.
Alavanca - Os seminários e oficinas para educadores tem tido boa repercussão; você pretende dar continuidade?
Rita - Fizemos uma oficina de literatura em Campinas que considerei muito boa, pelo interesse dos participantes, pela acolhida da USE-Campinas e do Centro Espírita Casa do caminho. Os dirigentes estão percebendo, cada vez mais, a necessidade e o cuidado de oferecer aos educadores recursos para aprimorar o trabalho. Considero este um dos melhores resultado, porque observamos que os grandes problemas da Educação Infanto-Juvenil na casa espírita são fruto do despreparo da equipe e da falta de conscientização dos dirigentes com respeito à natureza especial do trabalho dirigido à criança e ao jovem, que implica em necessidades específicas e que precisam ser atendidas.
Alavanca - Estão tentando aprovar a educação religiosa nas escolas; educação religiosa, de qual religião?
Rita - Não vejo o ensino religioso como tarefa da escola leiga. Ética, sim. Orientação religiosa é tarefa dos pais .Pessoalmente, acredito que a noção de Deus e da espiritualidade poderiam estar presentes no ensino formal, como "temas transversais", sem que se toque em questões especificas de cada religião. Agora, uma escola espírita pode ensinar Espiritismo, assim como uma escola católica pode ensinar Catolicismo, uma vez que os pais que matriculam os filhos nestas escolas estão cientes e concordam com a orientação que irão receber.
Alavanca - O Movimento Espírita brasileiro, por ser o maior do mundo, já tem condição de orientar a sociedade sobre as tendências violentas?
Rita - Não. Somos seres humanos falíveis e já faremos muito se orientarmos a nós mesmos. Primeiro, precisamos olhar para nós e resolver nossas questões internas, antes de sair orientando a sociedade. Agora, as obras de Kardec, e de alguns espíritas e Espíritos admiráveis podem ajudar a sociedade a se orientar, com certeza.
Alavanca - Acredita na idéia ecumênica como medida pedagógica, a curto prazo?
Rita - Acredito que a consciência de Deus Criador, Inteligência Suprema, como fonte superior de amor, bondade e justiça, não é e nem precisa ser exclusiva dos espíritas. Hoje em dia, é cada vez mais comum a pessoas dizerem que acreditam em Deus, sem se considerarem pertencentes a qualquer religião. E este é um pensamento que precisa unir as pessoas, não separá-las e rotulá-las. Creio que o respeito aos vários pensamentos religiosos e filosóficos precisa ser ensinado às crianças, assim como o fato de sermos irmãos, independente daquilo em que acreditamos. Conheço espíritas que se recusam a participar de cultos religiosos, nem que seja para acompanhar ou dar apoio a um amigo, usando como justificativa condição de serem espíritas. Esquecem-se de que disse Jesus, que estaria onde dois ou mais se reunissem em seu nome. Jesus não disse "onde dois ou mais espíritas se reunirem em meu nome". Na verdade onde os corações o buscam com sinceridade, sempre ele está.
Alavanca - Como escritora espírita, você acha que estão banalizando a literatura em nome mediunidade?
Rita - Há um cuidado indispensável a se tomar, quando se publicam livros e textos em nome do Espiritismo. Este cuidado nem sempre é tomado.
Há uma série de condições favoráveis à edição de material obtido através da mediunidade. Primeira: hoje em dia, é muito mais fácil produzir um livro do que antigamente, graças à evolução dos programas de computador e dos processos de impressão. Segunda: junta-se a isto o fato de que, com o grande número de centros e médiuns, muita coisa é escrita, em reuniões e fora delas, e muitos médiuns e grupos desejam publicar essas comunicações, até como modo de conseguir dinheiro para seu trabalho social / doutrinário. Terceira: as editoras descobriram que muita gente gosta de ler livros espíritas- especialmente, romances- e decidiram investir aí.
Mas Kardec já os alertava sobre isto, num livro pouco conhecido Viagem Espírita em 1862, se me permite, vou citá-lo. Kardec diz:
Isso me leva a dizer algumas palavras sobre as comunicações mediúnicas.
A sua publicação tanto pode ser útil, se feita com discernimento, quanto perniciosa, em caso contrário. No número dessas comunicações algumas há que, por muito boas que sejam, não interessam senão àqueles que as recebem e que pareceriam aos olhos dos leitores estrangeiros, simples banalidades. Outras apenas têm interesse nas circunstâncias em que foram transmitidas. (...) Ao lado disso, algumas há que são evidentemente nocivas, tanto por sua forma quanto por seu conteúdo e que, sob nomes respeitáveis, logicamente apócrifos, revelam um contexto absurdo ou trivial, o que, naturalmente, se presta ao ridículo e oferece armas à crítica.(...)
No interesse da doutrina convém, pois, fazer uma escolha muito severa em semelhantes casos e pôr de lado, com cuidado, tudo quanto pode, por uma causa qualquer, produzir uma impressão ruim.
Alavanca - Suas considerações finais. Fale tudo que achar bom para o Movimento Espírita no campo pedagógico e fale também do seu trabalho social e a casa em que participa como colaboradora.
Rita - Fico feliz em poder colaborar mensalmente com o Espaço do Educador, que este jornal publica desde Outubro de 2000, e agradeço a confiança em nosso trabalho, o qual vem sendo publicado com muito carinho. Eu gostaria de agradecer o convite para esta entrevista. Entrevistas nos dão a chance de expor nossas idéias num clima mais informal, oferecem uma visão melhor do ser humano que somos. As pessoas costumam ter muitas expectativas diante de um expositor ou médium espírita, contudo, também somos humanos, temos opiniões pessoais, erramos e acertamos.
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