Problemas terrenos e as soluções da Ética espiritualizada

Rita Foelker

Sabemos que, na Idade Média, a execução de criminosos em praça pública era comum, não causava qualquer tipo de constrangimento. Hoje esta prática foi banida. No século XIX, a escravidão foi considerada natural aqui mesmo, no Brasil. Atualmente, só pensar nesta possibilidade causa indignação na imensa maioria. Esses costumes se tornaram inaceitáveis e são condenados, muito embora ainda possa haver grupos isolados ou indivíduos que os aprovem.

Kardec, no Capítulo XXII de O Evangelho Segundo o Espiritismo, ao analisar o tema do casamento e divórcio, fala do progresso das leis e costumes humanos e diz que os mesmos se aperfeiçoam conforme se aproximam da Lei Divina ou Natural, considerada por ele como fonte e paradigma universal da moral verdadeira.

Em conseqüência destas diferenças evolutivas locais e temporais é que o permitido e o proibido, o certo e o errado, segundo a moral dos homens, variam bastante.

Um Espírito que reencarna nasce inserido em uma rede de relações, com regras já elaboradas e seguidas no novo meio onde vai viver. É natural que ele cresça acreditando que estas regras são absolutas e universais, que ele aprenda a adequar seu comportamento a elas. Quando mais tarde, ouve falar de regras e costumes diferentes, de outros povos, dependendo do quanto lhe soem estranhas e pareçam absurdas, poderá se escandalizar, condenar aqueles que as praticam.

Igualmente, há Espíritos que renascem trazendo conceitos morais bastante sedimentados em seu Ser, e se estes conceitos, quer sejam mais evoluídos ou mais atrasados que os do ambiente onde vem encarnar, colidem com as regras vigentes, poderá vir a quebrá-las.

Isto quer dizer que aquilo que particularmente consideramos "moral", embora pareça destinado a gerir as ações de todos os seres, pode ser relevante apenas para nós mesmos ou para o grupo a que pertencemos.

Há no nosso mundo muitas e diferentes morais.

As ações morais e as ações éticas

A moral é a regulação dos valores e comportamentos considerados legítimos por uma determinada sociedade, uma religião, uma certa tradição cultural etc. Um clube, um partido político, uma instituição também podem ter comportamentos que são aceitos entre seus membros e que correspondem à sua moral, embora não compartilhados pelo todo da comunidade. Ela serve para indicar a conduta que deve ser considerada boa ou má e orientar opções pessoais, sociais e políticas.

No contexto do Universo e da pluralidade dos mundos habitados, a Terra também possui sua moral, ou seja, o nível de progresso moral que atingiu.

Embora a palavra "moral" seja usada como sinônima da ética, existem algumas diferenças entre os dois conceitos.

Ética pode ser considerada como um ramo da Filosofia que estuda os comportamentos e procede a uma reflexão crítica sobre a moralidade, com o objetivo de balizar as ações humanas. Cabe a ela olhar os valores de forma profunda e ampla, verificando sua consistência e validade. A Ética exerce o importante papel de julgar a moral, identificando valores falsos e verdadeiros.

Assim se pode estabelecer uma clara distinção entre a ação moral e a ação ética.

A ação moral é toda aquela que provêm de uma escolha do Espírito e que tem conseqüências morais. O ato moral nasce no interior da criatura, que a cada momento, decide seguindo um tipo de pensamento filosófico ou religioso que lhe dá uma percepção do significado e das conseqüências do que faz. Esteja onde estiver e em que época for, será sua a responsabilidade pelos efeitos que derivam de sua decisão.

À luz do Espiritismo, podemos pensar na ação moral como aquela que manifesta o grau de evolução moral adquirido pelo Ser espiritual.

As ações éticas nascem igualmente da vontade livre, mas também da compreensão da natureza essencial da ética.

O nascimento do pensamento ético e alguns de seus representantes

Com Sócrates (470?-399 a.C), inaugura-se na Filosofia o estudo das ações e motivações humanas e do valor da vida, a Ética torna-se objeto da investigação e da reflexão humanas.

Não podemos nos esquecer da "ética das virtudes" desenvolvida por Aristóteles (384 - 322 a.C). A ética de virtudes propõe que a ação ética pode ser reconhecida por ser praticada por um agente virtuoso. Seu agente ético é necessariamente um Ser livre, racional e consciente daquilo que faz, sendo responsável pelo que faz, agindo em conformidade com o bom e o justo.

Kant (1724-1804), por sua vez, crê que a ação ética é determinada segundo o princípio moral da universalização das máximas denominado "imperativo categórico", assim por ele enunciado: "Age somente, segundo uma máxima tal, que possas querer ao mesmo tempo que se torne lei universal." (ver Anexo). O imperativo categórico é uma obrigação incondicional, independente de nossos desejos e vontades, e funciona como uma "ordem da razão".

Stuart Mill (1806-1873), defensor do utilitarismo, define a ação ética como aquela que eleva ao máximo a felicidade geral. Assim, encontra ele o sentido da ética na felicidade, naquele que é o objetivo maior das pessoas em relação às suas vidas.

Verificamos até aqui visões diferentes que, observadas em conjunto, quase alcançam a proposição espírita.

De acordo com esta última, ético é o comportamento de criaturas virtuosas. O Espiritismo, porém, considera meritória também a resistência a um mau pensamento, que quer dizer que ético não é apenas aquele que jamais pensaria em praticar o mal, mas também aquele que, considerando fazê-lo, obedece a uma razão mais ponderada e a um sentimento superior, gerador do respeito, e não o pratica.

Ética é a atitude tão superior às idiossincrasias e aos desejos egoístas, que deveria ser adotada por todos.

Éticos são os procedimentos que promovem ou contribuem para a felicidade geral. Mas o Espiritismo nos diz também que nestes procedimentos o próprio Espírito encontrará a sua felicidade, a realização de sua vocação mais essencial.

Em seu recente A águia e a galinha, Leonardo Boff põe a Ética nos seguintes termos:

"A ética, como morada humana, não é algo pronto e construído de uma só vez.

O ser humano está sempre tornando habitável a casa que construiu para si.

Ético significa, portanto, tudo aquilo que ajuda a tornar melhor o ambiente para que seja uma moradia saudável: materialmente sustentável, psicologicamente integrada e espiritualmente fecunda."

Provavelmente sem querer, Boff nos apresenta uma visão desta morada terrena entre as muitas moradas planetárias do Pai e sintetiza os efeitos dos comportamentos éticos sobre o mundo que habitamos.

Contribuições do Espiritismo para a Ética

A ética se elabora historicamente através dos milênios, não permanece sempre a mesma.

Como estudo e reflexão sobre a moralidade, a ética evolui com o desenvolvimento da razão e do sentimento, vislumbra e projeta o caminho do progresso moral, aponta como um farol na direção da felicidade individual e coletiva. Por isso, a evolução da ética precede a evolução moral, caminhando à frente desta como desbravadora e guia.

A ética pode e deve ser incorporada pelos indivíduos, sob a forma de uma renovação de atitudes perante a vida e o semelhante. Para renovar-se conscientemente, precisam eles desenvolver um olhar crítico sobre a moral vigente e escolher condutas éticas.

Vejamos que a moral dos bárbaros permite a barbárie. A moral dos corruptos aceita a corrupção. E da mesma maneira que olhamos fatos históricos que eram normais há séculos e que hoje são inadmissíveis, podemos olhar para fatos e comportamentos presentes e escolher se são bons para nós e para a sociedade ou não. Podemos, da mesma forma, olhar a moral do grupo em que estamos inserido e fazer uma análise semelhante.

Um dia, no futuro do planeta, talvez reencarnados, vamos nos admirar que pessoas tivessem regras e comportamentos como os que assistimos na atualidade.

Se nós enxergamos a decadência dos costumes pela lente do Espiritismo, que nos oferece o paradigma das leis universais, compreendemos que eles ainda existam, mas não condenamos nem compactuamos. Verificamos que é um processo que se desenrola e que dele podemos participar ativamente.

A ética segundo o Espiritismo não condena nem impõe comportamentos. Somos todos aprendizes em graus e experiências diferentes. Mas ela nos aponta o caminho da autotransformação. Nosso amadurecimento enquanto Seres morais vem da compreensão do que fazemos e do porquê de o fazermos. Isto se estende a todos, mas começa no íntimo de cada Ser.

Hoje, a moral de um povo pode corresponder à sua verdade, mas não retrata em muitos aspectos a moral inspirada nas leis divinas. Uma família, uma empresa, um país e uma casa espírita também têm a sua moral e só o estudo da ética vai dizer o quão perto estas morais estão próximas das Leis Morais criadas por Deus.

Para saber mais:

  • A águia e a galinha, Leonardo Boff, Ed. Vozes.
  • Evolução Humana e Fatos Históricos, de Régis de Morais, Ed. EME.
  • Fundamentos da metafísica dos costumes, de Immanuel Kant. Ediouro.

Anexo Volta
Ética segundo Kant

Imperativo Categórico: Age somente, segundo uma máxima tal, que possas querer ao mesmo tempo que se torne lei universal.

Imperativo Universal: Age como se a máxima de tua ação devesse tornar-se, por tua vontade, lei universal da natureza.

Imperativo Prático: Age de tal modo que possas usar a humanidade, tanto em tua pessoa como na pessoa de qualquer outro, sempre como um fim ao mesmo tempo e nunca apenas como um meio.

Kant em Fundamentos da metafísica dos costumes (1785).