Como incentivar a formação de uma comunidade de investigação entre suas crianças

Para compreender a natureza do trabalho com Filosofia Espírita para Crianças, comecemos refletindo a partir do texto abaixo:

Introdução

Podemos dizer que ensinar dialogicamente é um método de incutir integridade e honestidade num mundo cheio de fraude. É comum ao andar pelos corredores de uma escola, ouvirmos um professor dando uma aula. Nos perguntamos se os estudantes, que estão passivamente sentados em seus lugares tomando notas, compreendem o significado do que o professor está dizendo. Podemos imaginar um jovem estudante pensando:

- O que será que isto tem a ver com qualquer coisa na minha vida?

Acho que poucos estudantes compreendem os assuntos em discussão até que sejam capazes de participar ativamente. Se eles não participam de modo ativo, possivelmente não serão capazes de aplicar suas anotações de aula a um problema particular. Alguns estudantes de escolas tradicionais, podem até ser capazes de falar eloqüentemente sobre o que algum filósofo em particular disse sobre tempo, espaço, beleza, individualidade, ética, Deus e liberdade. Mas, quando lhe perguntamos o que eles acham, ficam mudos.

O ensino dialógico força os alunos a pensarem sobre o significado de suas palavras e sobre as conseqüências de suas opiniões, assim como de suas ações. Por estarem participando ativamente de todos os assuntos em discussão, começam a vivenciar a relação entre teoria e prática, em contraste com falar sobre. Uma das pressuposições do método é que deliberar com os outros é um caminho mais seguro para a verdade e para o significado do que uma reflexão solitária ou a memorização do discurso do professor.

A transformação das salas de aula em comunidades de investigação necessita um compromisso com o próprio processo de investigação por parte de cada um dos membros da classe (grifo nosso). Sem esse compromisso provavelmente haverá disputa, intolerância, questões tolas, falta de atenção e forte egocentrismo.

A investigação em comunidade é a antítese de simplesmente procurar pela resposta do professor. Alguns hábitos têm que ser desenvolvidos: capacidade de trabalhar duro, atenção para os detalhes, objetividade, aversão por falsidade e manipulação, interesse por melhores meios de raciocinar, disposição em acolher alternativas e respeito por cada um dos membros da classe e seus pontos de vista. E o mais importante é que se deve estar disposto a rever uma opinião se for para onde a investigação conduz. Quando tal investigação vem a ser uma realidade na sala de aula, moralidade torna-se investigação ética, isto é, um pensar em conjunto sobre assuntos morais ao invés de submissão à inculcação autoritária de certas regras ou princípio éticos.

(Trecho do artigo A EDUCAÇÃO PARA O PENSAR E A COMUNIDADE DE INVESTIGAÇÃO, do Prof. Marcos Antônio Lorieri, disponível em www.cbfc.com.br.)


O trabalho com as crianças de até 10 anos pode ser feito espontaneamente, utilizando para isto uma história ou uma experiência que motivem a pensar. O coordenador mediará o diálogo, observando a ordem e praticando uma disciplina que não sufoque a espontaneidade.

A partir dos 10 anos, para que as crianças entendam melhor as razões do que estão fazendo, é interessante que elas percebam alguns conceitos e regras relacionados a uma comunidade de investigação.

Para introduzir a noção de comunidade de investigação junto a estes alunos anos, sugerimos as seguintes atividades:

Atividade 1: DESDOBRADURA

- Entregue uma dobradura simples e diferente para cada grupinho de 4 ou 5 crianças, pedindo que desdobrem e descubram como foi feita. (Se não conhecer nenhum modelo, veja em Super Origami.)

Explique que filosofar é isto, é desdobrar uma idéia para entender o que ela é e qual é a sua essência.

Observando as marcas no papel, descobrimos como alguém chegou àquele resultado.

Se desdobramos muito rápido, não compreendemos bem como foi. Por isso, precisamos de calma e atenção. Obs.: Este é o processo de investigação a que se refere o texto lido.

- Peça que os grupos tentem refazer a dobradura, utilizando o conhecimento de como ela foi feita. Se houver dificuldade, ajude os grupos.

- Troque as dobraduras de grupo e peça que descubram como foi feita esta outra que acabaram de receber. Ajude as crianças a observar que, depois de haver feito uma primeira vez, agora, sabemos melhor como proceder.

- Pois bem: para entender as idéias, também é assim. Podemos ter dificuldade, no começo, mas depois vamos aprendendo o que é necessário fazer para melhor entender estas idéias. E algumas pessoas acostumadas a conversar sobre idéias propuseram algumas regras, pra tornar nossa conversa mais produtiva, que nós vamos ver em seguida.

Atividade 2: ANTI-REGRA

Depois da Desdobradura ou no encontro seguinte:

- Pedir para 8 crianças formarem um grupo no meio da sala. Entregar um papelzinho com uma anti-regra para cada pessoa que vai representá-la no grupo:

1. Eu sempre falo complicado.
2. Eu jamais explico minhas opiniões.
3. Sempre trago assuntos que não têm nada a ver com o tema da conversa.
4. Nunca respeito a vez dos outros falarem.
5. Só eu sei a verdade, os outros são uns ignorantes.
6. Falo o tempo todo, não deixo ninguém mais participar.
7. Nada disso me interessa, por isso estou cochilando.
8. Não vejo a hora de acabar!

- Narrar o seguinte início de história:

Num grupo de crianças, o estudo sobre "Como fazer preces" ia adiantado, e a discussão ficava cada vez mais quente...

- Deixar que o grupo desenvolva a cena, observando o que for interessante para comentar depois.

- Pergunte a todos: o que está acontecendo aqui? Vocês acham que dá pra estudar assim? O que vocês entenderam do assunto que o grupo se propunha a discutir? Converse sobre a dificuldade de raciocinar e dialogar quando não há ordem e cooperação.

- Agora, entregue ao grupo as regras (texto abaixo) e peça que cada um troque a sua anti-regra pela regra do mesmo número, que está neste texto.

- Reinicie a cena onde cada criança procura seguir as regras. Depois, pergunte: Qual a diferença entre a outra cena e esta? Deu pra entender o assunto?

- Opcional (se considerar o grupo amadurecido para isto): Peça às crianças que procurem nestas regras quais as virtudes que estão sendo aplicadas. Ex.: "linguagem simples" - simplicidade; "não trazer assuntos que não estejam relacionados ao tema" - respeito; etc.

- Conte que, a partir de hoje, é assim que vamos trabalhar em nossas aulas.

Algumas regras de procedimento do diálogo filosófico
em sala de aula.
Baseadas no texto homônimo de Ann Margaret Sharp

O professor deve sugerir algumas regras ou pedir aos alunos que eles mesmos as criem. Algumas regras a serem sugeridas podem ser:

1. Quando estamos tentando expressar um pensamento, devemos tentar usar uma linguagem simples.

2. Devemos estar dispostos a oferecer razões para nossos pontos de vista, se forem solicitadas.

3. Não devemos trazer à baila assuntos que não estejam relacionados com o tema em discussão. Se quisermos mudar o assunto em discussão, devemos perguntar aos demais se concordam.

4. Só uma pessoa deve falar de cada vez.

5. Devemos respeitar cada pessoa na classe como uma possível fonte de verdade. Esse respeito se manifesta em ouvir atenta e cuidadosamente os outros e em auxiliar os colegas a desenvolverem suas posições, mesmo que não concordemos com ela.

6. Devemos tentar incentivar todos a falarem sobre o assunto.

7. Devemos estar dispostos a construir sobre as idéias dos outros e submeter a nossa posição à investigação de todos.

8. Devemos acompanhar o diálogo.

Simplicidade - Paciência - Respeito - Caridade - Humildade