Sobre "Os Sete Saberes necessários à Educação do Futuro"
Estou lendo um livro neste momento que se chama Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro, de Edgar Morin 1. Digo que estou lendo 2 porque minha intenção é, enquanto leio, fazer um resumo para colaborar com meus amigos educadores, sem, contudo, imaginar que este resumo substitui a leitura do original. Pelo contrário, tomara que ele desperte a sua curiosidade. Morin nos diz que estes saberes antecedem quaisquer discussões didático-pedagógicas, porque os situa como necessidades básicas de toda intenção de educar, como ferramentas essenciais àqueles que partilharão a sociedade humana nas próximas décadas. Vamos a eles: 1. As cegueiras do conhecimento: o erro e a ilusão. Todo conhecimento comporta o risco do erro e da ilusão. Eis como Morin abre o primeiro capítulo do livro. O conhecimento não é um espelho fiel à verdade, embora tenhamos a impressão de que aquilo que percebemos é a verdade quando, mais precisamente, é uma forma de compreender a verdade, um apanhado de elementos limitado pela nossa possibilidade de perceber e assimilar. Um exemplo concreto disto é o daqueles desenhos que criam ilusões de ótica ou erros de percepção, como o da figura abaixo:
Representada não só pelo seu nível intelectual, mas pelos seus preconceitos, temores, emoções e sentimentos, a subjetividade do conhecedor altera a percepção e interpretação da verdade. Sufocar a afetividade não é solução, pois também é ilusão pensar que se pode consegui-lo. A educação precisa mostrar que não existe conhecimento que não corra o risco, e que a maior dificuldade está em que o erro e a ilusão não se reconhecem como tais. Precisa, portanto, ajudar a identificar a origem dos erros e ilusões. Morin cita e descreve, então:
Já que as possibilidades de erro e ilusão são múltiplas e permanentes, para maior segurança do conhecimento que temos, precisamos refletir sempre sobre nossas formas de conhecer. 2. O conhecimento pertinente Não basta ter acesso às informações, mas é preciso aprender a organizá-las e articulá-las. Saberes isolados não são funcionais. Por isso, a educação precisa ajudar a perceber e a conceber as relações entre as partes do conhecimento e a relação todo/partes, que Morin classifica em quatro instâncias: 2.1. O Contexto. O conhecimento de informações ou dados isolados não é suficiente. É preciso situar as informações em seu contexto, para que elas adquiram sentido e funcionalidade. O exemplo oferecido no livro é o da palavra no texto. Vejamos: A palavra manga, fora de uma frase ou texto, pode ter vários significados. No contexto em que a colocamos é que ela se define, como nestes casos: Apanhei a manga mais madura. Quero um vestido sem mangas. 2.2. O Global (as relações entre o todo e as partes). O global é mais que o contexto, pois é tudo o que se liga ao contexto e às suas partes. O todo tem qualidades que emprestam características às partes e estas características só são entendidas quando atingimos a percepção da totalidade. 2.3. O Multidimensional. O ser humano e a sociedade são multidimensionais. O ser humano é ao mesmo tempo biológico, psíquico, social, afetivo e racional. O conhecimento pertinente precisa levar em conta todas as dimensões humanas e sociais. 2.4. O Complexo. Assim como não se pode isolar a parte do todo, não se pode isolar uma dimensão das outras, pois todas interagem e interdependem. O conhecimento pertinente é aquele que não despreza a tecitura formada pela interação e interdependência de seus elementos, das diversas dimensões presentes nos processos humanos. A educação do futuro precisa favorecer o exercício da curiosidade e mobilizar conhecimentos de conjunto. A hiperespecialização das disciplinas, no século XX, fragmentou o conhecimento em campos fechados sobre si mesmos. A educação do futuro precisa unir e interligar os saberes. 3. A condição humana A condição humana é o ponto central da educação do futuro. Para conhecer o humano, é preciso encontrar seu lugar no universo. As concepções do ser humano formuladas pela Biologia, História, Ecologia, etc., estão hoje desunidas. O "humano" está fragmentado em olhares isolados das próprias ciências humanas. E quanto mais estas avançam, isoladas, mais aumenta a ignorância do todo. A educação do futuro precisa promover a aproximação entre as ciências humanas e naturais e destas com a filosofia, a literatura, as artes... Citando Morin textualmente: Cabe à educação do futuro cuidar para que a idéia de unidade da espécie humana não apague a idéia de diversidade e que a da sua diversidade não apague a da unidade. Há uma unidade humana. Há uma diversidade humana. A unidade não está apenas nos traços biológicos da espécie Homo sapiens. A diversidade não está apenas nos traços psicológicos, culturais, sociais do ser humano. Existe também diversidade propriamente biológica no seio da unidade humana; não apenas existe unidade cerebral, mas mental, psíquica, afetiva, intelectual; além disso, as mais diversas culturas e sociedades têm princípios geradores ou organizacionais comuns. É a unidade humana que traz em si os princípios de suas múltiplas diversidades. Compreender o humano é compreender sua unidade na diversidade, sua diversidade na unidade. É preciso conceber a unidade do múltiplo, a multiplicidade do uno. 4. A identidade terrena A união planetária é a exigência racional mínima de um mundo encolhido e interdependente. Tal união pede a consciência e um sentimento de pertencimento mútuo que nos una à nossa Terra, considerada como primeira e última pátria. Segundo Morin, que considera nosso planeta um turbilhão em movimento, desprovido de centro organizador, é preciso criar um pensamento consciente de pertencer a uma comunidade planetária e, enquanto cidadão terrestre, de participar de processos múltiplos e distintos, mas solidários entre si. Ou seja: todos os nossos atos e omissões afetam nosso planeta de algum modo. A educação do futuro precisa desenvolver a capacidade de pensar o contexto terrestre, o global, o multidimensional e o complexo, amenizando os conflitos e ensinando a ética da compreensão planetária. 5. Enfrentar as incertezas Segundo Morin, a História nos demonstra que não evoluímos linearmente e que nossos caminhos são repletos de incertezas. Morin chama a história humana de aventura desconhecida e afirma que a grande conquista da inteligência poderia ser libertar-se da ilusão de prever o destino humano. 3 Tão logo empreendemos uma ação, ela escapa de nossas intenções. Os cientistas que fazem descobertas não imaginam com que finalidade ela poderá ser utilizada. Existe uma impossibilidade de prever desdobramentos a médio e longo prazo, daquilo que decidimos no presente. A incerteza transforma cada escolha numa "aposta", onde escolhemos conscientes do risco. Pode-se calcular efeitos de nossas ações a curto prazo, mas não a longo prazo. Portanto, o pensamento precisa aparelhar-se para enfrentar a incerteza, através da consciência da aposta e da criação de uma estratégia. 6. Ensinar a compreensão humana Hoje em dia, o mundo todo está conectado. As distâncias praticamente desapareceram.É necessário que a educação nos dê instrumentos para compreender este fenômeno que estamos vivendo hoje. A quantidade de informação, a rapidez das transformações, os problemas do planeta são fatos que precisamos processar, desenvolvendo uma visão mais abrangente, captando a "linha do tempo" em que nos inserimos, verificando de onde viemos e para onde vamos com as opções que estamos fazendo. É preciso mostrar que a humanidade é uma comunidade de necessidades comuns a serem atendidas. 7. Uma ética para a Humanidade A noção de uma comunidade planetária aponta para a necessidade de uma ética para a Humanidade. Ao lado da autonomia pessoal e da iniciativa, cabe-nos desenvolver, ao mesmo tempo, a ética e a noção de responsabilidade pessoal, além de uma participação social, desde que compartilhamos um destino comum. Como equacionar os problemas dos diversos países, das diversas cidades, das diversas instituições? Somente num ambiente democrático, com respeito às diferenças, liberdade de expressão e exercício do constante diálogo os valores desta sociedade poderão ser encontrados e preservados. Notas:
1. Cortez Editora/UNESCO. Voltar 2. Isto foi em Novembro de 2003. Voltar 3. N. da A.: Morin defende um universo que não obedece a uma ordem impecável. Segundo o Espiritismo, contudo, os fatos são ordenados pelas necessidades da evolução espiritual dos seres e há, sim, uma ordem impecável, representada pelas Leis de Deus. Interpreto a incerteza como a impossibilidade de tudo prever e saber, dentro de nossa percepção limitada, afinal, segundo ele mesmo, nossa realidade não é outra senão nossa idéia de realidade. O conhecimento apresenta o constante risco de ilusão e de erro. Voltar Leia mais: Edgar Morin: A Ótica da Complexidade e a Articulação dos Saberes, por Nelly Novaes Coelho, em www.geocities.com/pluriversu/nelly.html. |