A Ovelha Desgarrada

Uma Amiga / Rita Foelker
Às vezes, pergunto-me até que ponto os mestres da Terra realmente compreenderam o porquê de nosso Mestre Maior nos haver deixado a parábola da ovelha perdida.
Ele não falava de pastores, ou de ovelhas, ou de perder-se de um rebanho. Ele falava de Educação.
Ele comparava a função do Mestre à de um pastor, no que ela tem de mais terna, cuidadosa, no trabalho de cuidar das almas, não para indicar-lhes um caminho (hoje sabemos), mas para ensinar-lhes a não se perderem no caminho escolhido por elas mesmas e a refazer seus possíveis descaminhos.
A figura de um pastor é profundamente ligada à Natureza da região onde vive, necessitando saber tanto do frio que pode fazer, como quanto frio suas ovelhas podem suportar sem perecer, a fim de providenciar-lhes indispensável abrigo; necessitando conhecer os pastos e fontes, para conduzir suas amigas a perceberem e suprirem suas mais elementares necessidades de sobrevivência; observando as estações para agir no tempo certo da forma mais eficiente...
São muitas as interpretações centradas na imagem da ovelha desgarrada do rebanho, como se a procura de alternativas próprias fosse, em si, altamente reprovável. E é difícil não julgá-la, julgando ao mesmo tempo todos aqueles que, em nossas classificações mentais, pertencem à categoria dos que fugiram à regra.
O que fez, terá sido certo ou errado? Afinal, não acabou por receber uma recompensa, a atenção maior do responsável por ela, o que, de certo modo, significa que podemos agir temerariamente para suprir nossas carências íntimas, aguardando algum protetor que nos venha em socorro?
Não, certamente não eram estas as intenções do Mestre: nem de que nos fizéssemos juízes dos outros, nem de que tirássemos vantagens de nossas fragilidades. Não seria preciso que o Cristo se movimentasse das alturas até nós, para ensinar o que já fazemos tão bem...
A parábola da ovelha perdida encerra uma outra lição preciosíssima. De que um bom pastor não deseja, não pode, nem quer perder nenhuma de suas ovelhas pelo caminho, porque a todas ele ama individualmente e cada qual é insubstituível. Aquela que se perdeu não é especial por perder-se pois, na verdade, todas são especiais a seu modo, e ele sairia em busca de qualquer uma delas que pudesse colocar-se em perigo.
Os perigos, para as almas-educandas, representam as idéias falsas a que se aprisionam, as redes de ilusões em que se debatem, podendo o pastor-educador resgatá-las de suas próprias armadilhas, trazê-las de volta ao meio mais propício, à disposição íntima mais favorável à compreensão da verdade.
Isto, Jesus faz conosco, trazendo-nos de volta ao seu convívio, à influência de seu amor incomensurável e de sua irresistível ternura, para que todas as almas conheçam e saibam que o amor as assiste, o amor as ampara, o amor as guia aos campos verdes e águas puras do Reino.

Não consigo deixar de me emocionar com esta mensagem.
Especialmente quanto ela fala da impropriedade dos julgamentos, do amor do mestre pelos alunos e da afeição dedicada individualmente a cada um.
Há professores que vêem cada aluno como apenas mais um, a classe como uma massa onde as características pessoais se confundem. Ele geralmente quer que a classe aprenda do jeito que ele sabe ensinar, e jamais questiona seus métodos.
Outros professores conseguem perceber cada aluno como uma criatura única, com quem desenvolve um vínculo único. Procura adequar seu método às características daquela turma e vê cada aluno como um ser humano, em toda a sua riqueza e complexidade.
Estes professores conseguem exercer uma verdadeira autoridade moral, enquanto que aqueles só encontram a saída do autoritarismo, para serem atendidos.
Como evolução e aprendizagem são processos íntimos agindo na transformação de cada criatura, perceber que cada aluno é um ser único, numa jornada única, torna muito mais apropriada e eficiente nossa atuação enquanto educadores.
Isto também nos permite melhor amar a cada um, naquilo que tem de seu.

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