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ARTIGO
EM DESTAQUE
A justiça e os homens
Por Rita Foelker

Tudo o que é justo é bom.
Tudo o que é bom vem de Deus.
Portanto, tudo o que é justo vem de Deus.
A justiça é um tema que não sai de nossa pauta cotidiana. Justiça é também um dos grandes temas da filosofia, pelo menos desde a República de Platão (séc. V a.C.), além de ser o conceito-chave do diálogo entre Agostinho e Evódio narrado na obra "O Livre-Arbítrio".
Re-visitar esse conceito nos faz perceber algo relevante sobre as suas concepções humanas. A primeira idéia que ressalta é a de que, geralmente, consideramos que justiça é o mesmo que a "nossa visão particular de justiça", algo como retribuir o bem com o bem e o mal, com o mal. E a segunda idéia, também muito forte e comumente aceita, é a de que cada um de nós tem competência para saber o que é justo e fazer justiça por conta própria, definindo méritos e arbitrando punições, conforme sua perspectiva particular.
Ampliando a visão
O raciocínio de Evódio pode ser sintetizado no silogismo em epígrafe, que foi construído pelo próprio professor.
Olhando para fora da sala de aula, vemos o panorama da sociedade humana, que nos apresenta pessoas freqüentemente agindo da forma que consideram ser a mais justa. Contudo, muitos resultados da aplicação de tal "justiça" são lamentáveis. Ela nem sempre é boa e nem sempre conduz a um bem. É assim a "justiça" dos homens.
Não vamos entrar aqui numa discussão sobre as normas jurídicas, pois decididamente falta-me a necessária competência. Mas proponho refletir sobre qual seria a possibilidade ou impossibilidade dos seres humanos aplicarem a justiça (em sua mais pura acepção) no dia-a-dia, às questões da vida pessoal, familiar e institucional. E isso equivale a dizer que me proponho a refletir sobre nossas crenças acerca da justiça.
O que pensamos
A maioria de nossas crenças não possui nenhuma prova de sua veracidade, além de serem influenciadas por nossos desejos (1). E, mesmo assim, "conquanto as crenças não sejam diretamente responsáveis por mais que uma pequena fração de nossos atos, são dos mais importantes os atos por que respondem, e em grande parte determinam a estrutura geral de nossa vida." (2) Bertrand Russell (1872-1970), autor do trecho citado, escreveu este pensamento que nos ajuda a entender que, embora adotemos crenças como verdades e as utilizemos para nossos juízos, quase nunca temos como saber se elas são verdadeiras. Logo adiante na mesma obra (3), o autor observa que as pessoas costumam, primeiro, decidir por um caminho e, depois, buscar as explicações que sustentam esta decisão. Assim, aquilo que chamamos de "fazer justiça" pode não ser mais que um conjunto de idéias equivocadas e ações impulsivas, as quais, em nome da alegada racionalidade do homo sapiens, tentamos justificar.
Russell oferece vários exemplos de sua época. Poderíamos, talvez, exemplificar da seguinte forma: primeiro, o chefe demite um empregado cuja atitude o desagrada pessoalmente ou por crer que este ameaça sua posição na empresa, ou por ser de outra religião... E, depois, o mesmo chefe irá justificar a sua ação alegando que foi por razões administrativas, para cortar despesas ou porque empregado não apresentava o rendimento esperado...
A aparência de justiça não implica na realização efetiva daquilo que seria o mais justo. Um exame da nossa interioridade revelaria algumas ou muitas ocasiões em que coisas assim ocorreram, dependendo do quanto estamos dispostos a ser honestos conosco mesmos. Revelaria igualmente a injustiça potencial presente em ações decididas com base na nossa apreciação pessoal dos fatos, bem como dos nossos próprios motivos e das razões e condições subjetivas das pessoas que pretendemos julgar.
Disso tudo ressalta, ao menos para mim, que a compreensão da justiça como aquela que provém de Deus, e unicamente de Deus, resolveria muitos de nossos problemas. Seria, primeiro, um ato de humildade. Seria, também, o reconhecimento de que não temos visão perfeita das circunstâncias - pois em geral vemos melhor o mal que o bem, vemos o defeito antes da qualidade, vemos mais os nossos interesses que os interesses alheios.
Tal compreensão teria ainda a vantagem de tirar de nossos ombros o peso de ter de ser justos para buscarmos, a partir de então, ser simplesmente corretos, o que já é muito. E, quem sabe assim, nosso coração se abrandaria, e exercitaríamos a bondade e a compaixão mais amiúde.
Notas:
1. Russell, B. Ensaios céticos. Coleção dos Prêmios Nobel de Literatura. Rio de Janeiro, Delta, 1966, p. 68.
2. Idem, p. 62.
3. Idem, p. 63.

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